O OUTRO COMO REFLEXO: UMA ANÁLISE DA PROJEÇÃO EM NÓS.
- Fabiano Loureiro
- 4 de set. de 2025
- 4 min de leitura

Das várias lições que Freud nos deixou, há uma de que gosto muito e que vou descrever com as minhas próprias palavras, pois foi um trabalho de elaboração meu. Trata-se do seguinte: todo defeito que você enxerga no outro deve ser ajustado em você.
À primeira vista, essa frase pode parecer um clichê da psicanálise, mas ela tem um respaldo teórico importantíssimo. Vou tentar apresentar um pouco desse conceito de forma muito breve, pois aqui é apenas a ponta do iceberg.
O Mecanismo da Projeção Individual
A projeção é um mecanismo de defesa inconsciente. O que isso quer dizer? Quer dizer que, para lidar com seus conteúdos internos (desejos, frustrações, fantasias e afins), o sujeito os coloca para fora, atribuindo-os ao outro.
Para citar Lacan, em seu trabalho sobre o "Estádio do Espelho", ele mostra que o "eu" se constitui a partir da imagem do outro. O que reconhecemos ou estranhamos no outro está sempre ligado à nossa própria formação imaginária. Dessa forma, o que Freud chamou de projeção pode ser lido em Lacan como um efeito da relação com o semelhante : aquilo que me incomoda no outro revela algo do meu próprio narcisismo e das minhas falhas simbólicas.
Por exemplo, se a arrogância de alguém o irrita, pode ser que, no fundo, você lute contra sua própria tendência a querer ser superior. Se a preguiça alheia o tira do sério, talvez você esteja lidando com uma culpa interna por não se permitir descansar. O que vemos lá fora é, na verdade, um reflexo do nosso mundo interior. O outro não é o problema; ele é apenas o espelho.
A Projeção em Fenômenos de Grupo
A projeção não se limita às relações interpessoais; ela ganha grandes proporções nos fenômenos de grupo. Em seu trabalho clássico "Psicologia das Massas e Análise do Eu", Freud investigou como os indivíduos, ao se fundirem em um grupo, perdem parte de sua individualidade e se deixam levar por ideais e sentimentos coletivos.
Nesse contexto, a projeção coletiva ganha força. Um grupo pode projetar em um "inimigo" externo todos os seus medos, fraquezas e frustrações. O "outro" pode ser um grupo social, uma nação ou uma ideologia política. Ao demonizar esse "inimigo", a massa se une e se sente mais forte, sem precisar lidar com suas próprias contradições internas. A agressividade dirigida ao outro é uma forma de evitar o autojulgamento e a análise das próprias falhas.
Um exemplo disso é o nosso cenário político dos últimos anos, em especial. A polarização entre lulistas e bolsonaristas, o autor se arrisca a dizer, não se baseia apenas em diferenças de propostas políticas, mas em um jogo de projeções. Os defeitos, medos e fraquezas que cada grupo não consegue reconhecer em si mesmo são projetados no outro.
Para os apoiadores de Bolsonaro: a corrupção, a "moralidade frouxa" e a "ameaça comunista" são projetadas em Lula e na esquerda. O que é visto como falha no outro é a negação de medos internos, como a instabilidade econômica, a perda de valores tradicionais ou a ameaça a uma ordem social que consideram justa. A agressividade contra o "comunismo" ou "socialismo" pode, na verdade, ser uma forma de evitar o questionamento sobre as próprias injustiças e desigualdades dentro do sistema que defendem.
Para os apoiadores de Lula: o autoritarismo, a falta de empatia e o "fascismo" são projetados em Bolsonaro e na direita. A crítica ao que veem como desumanidade e falta de civilidade pode ser uma forma de evitar o confronto com as próprias contradições, como o dogmatismo e a intolerância contra aqueles que pensam de forma diferente.
Nesse cenário, a coesão dos grupos se fortalece à medida que a ideia do inimigo é construída e reforçada. A projeção não é um ato individual, mas um fenômeno de massa que consolida a identidade do grupo. O "nós" só existe plenamente em oposição a um "eles" que encarna tudo o que é negado e temido.
O Caminho de Volta a Si Mesmo
A análise do "eu", que seria um reconhecimento de si próprio, torna-se quase impossível no contexto de massa. O indivíduo dentro do grupo deixa de se questionar e passa a ecoar as crenças e os julgamentos do coletivo. A crítica se torna exclusiva do "outro", e a autocrítica, ou a percepção das próprias falhas, é vista como traição ao grupo.
Para finalizar, esse mecanismo de projeção cria um ciclo. Em vez de lidar com nossas falhas, nós as projetamos nos outros, o que nos permite continuar a criticá-los e a nos sentirmos superiores. O trabalho analítico, nesse sentido, é ajudar o indivíduo a "devolver a projeção".
O analista não diz que você está errado por se irritar, mas pergunta por que você se irrita tanto. A pergunta é uma ferramenta para guiá-lo de volta a si mesmo. Ao reconhecer que o incômodo é interno, você pode começar a desarmar o mecanismo de projeção. Ao fazer esse movimento, o indivíduo pode começar a se libertar da necessidade de julgar e criticar os outros e, em vez disso, focar em si próprio e em sua vida, sem distrações. A verdadeira mudança não acontece no outro, mas dentro de si mesmo, ao reconhecer e integrar as partes de si que foram negadas ou projetadas.



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