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Quando o amor vira urgência: entre a falta e o medo da solidão

Dois casos recentes em meu consultório trouxeram à tona uma questão que tem se repetido em diferentes formas: a dificuldade em lidar com a solidão e a urgência de estar com alguém.

Uma jovem, que vive seu primeiro namoro, relata um sofrimento intenso ao se separar da parceira a cada final de semana. A angústia da despedida invade o presente, de modo que nem consegue desfrutar do encontro, pois já está antecipando a perda. As lágrimas no domingo revelam o peso dessa fantasia de separação, como se o laço amoroso estivesse sempre à beira da ruptura ou de uma tragédia imaginária.


De maneira semelhante, um rapaz, que iniciou um relacionamento à distância, vive a ansiedade de não estar perto do parceiro. Para ele, a ausência é insuportável e reativa a dependência emocional que já o fazia sofrer em vínculos anteriores. O namoro, que poderia ser espaço de descoberta e partilha, transforma-se muitas vezes em angústia diante da falta do outro.


Esses relatos não se restringem às histórias individuais, mas apontam para algo mais amplo: a dificuldade contemporânea em sustentar a solidão. É como se o tempo da espera estivesse em extinção, substituído pela pressa em encontrar alguém, pela necessidade de preencher rapidamente o vazio que a ausência do outro provoca.


Na psicanálise, aprendemos com Freud e Lacan que o amor sempre se articula a uma experiência de falta. O sujeito não busca apenas o outro, mas aquilo que acredita que o outro pode vir a completar. Nesse sentido, a angústia diante da separação pode ser lida como a irrupção daquilo que escapa ao nosso controle: a constatação de que o outro nunca está inteiramente disponível para nós, e de que a ausência faz parte da estrutura mesma do desejo.


Freud (1926/2014), ao falar da angústia, já destacava como ela surge muitas vezes na antecipação de uma perda, e não apenas diante de um perigo real. É o caso da jovem que, em vez de viver o presente do encontro, sofre antecipadamente um futuro que ela mesma imagina. Lacan (1962-1963/2005), por sua vez, lembrava que a angústia não engana: ela revela justamente o ponto em que o sujeito se depara com a falta, com aquilo que o escapa.

O medo da solidão, então, pode ser compreendido como dificuldade em se relacionar com essa falta constitutiva. Em vez de reconhecê-la e sustentá-la, busca-se rapidamente alguém que ocupe o lugar de tamponar esse vazio. Mas, ao fazer isso, o laço amoroso corre o risco de se tornar uma repetição de sintomas: a dependência, o medo da perda, a fantasia de abandono.


Curiosamente, em ambos os casos relatados, o namoro começa antes do conhecimento profundo do outro. Conhecem-se já no lugar de parceiros, e não antes. Essa pressa em instituir um vínculo mostra o quanto, muitas vezes, o desejo de estar acompanhado fala mais alto do que a possibilidade de se permitir conhecer e ser conhecido.


A psicanálise não traz receitas para o amor — nem poderia. Mas nos convida a pensar que talvez seja justamente na possibilidade de suportar a solidão, de sustentar um tempo consigo mesmo, que se abre espaço para um encontro mais verdadeiro com o outro. Como lembra Lacan (1972-1973/1985), “amar é dar o que não se tem a alguém que não o é” — ou seja, não se trata de preencher faltas, mas de partilhar aquilo que se tem de mais singular.


O sofrimento desses dois pacientes nos ensina que o amor, quando vivido a partir da pressa e do medo da solidão, pode se tornar fonte de angústia. Mas também nos lembra que é na travessia desse mal-estar que algo novo pode se construir. A análise, ao abrir espaço para que o sujeito fale de seus medos, fantasias e repetições, permite não apenas aliviar a dor imediata, mas também elaborar uma nova forma de se relacionar com o desejo, com o tempo e com o outro.

Referências

  • Freud, S. (1926/2014). Inibições, sintomas e angústia. Obras Completas, vol. 17. São Paulo: Companhia das Letras.

  • Lacan, J. (1962-1963/2005). O Seminário, livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

  • Lacan, J. (1972-1973/1985). O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

 

 
 
 

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