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Quando o diagnóstico vira muleta e o sujeito some

De uns tempos pra cá, virou moda apresentar o diagnóstico junto com o RG. A pessoa nem fala muito de si, mas fala com convicção do transtorno. Às vezes até parece que o diagnóstico virou a explicação oficial para tudo que acontece na vida dela.

“Ah, eu faço isso porque tenho tal coisa.”“Eu reajo assim por causa do meu diagnóstico.”“Eu sumo porque sou ansioso.”


E, claro, a gente escuta, acolhe… mas lá no fundo fica aquela pulga atrás da orelha:Será mesmo? Ou será que é só você sendo você com aquela consistência impressionante de repetir as mesmas histórias desde sempre?

Porque, sejamos honestos: se fosse mesmo o diagnóstico o responsável por tudo, ele merecia carteira assinada, férias e décimo terceiro. Mas não é. Na maior parte das vezes, quem trabalha de verdade ali é a sua história afetiva, sua maneira singular de desejar, de fantasiar, de se defender e de se enroscar nos outros. Coisas que não aparecem no CID, mas aparecem, e muito, na vida rotineira.

O diagnóstico ajuda, claro. Ele organiza, aponta, abre possibilidades de cuidado. Mas transformar o diagnóstico na explicação universal da vida é um atalho perigoso (e não tão inteligente quanto parece). É como usar um guarda-chuva pra consertar um vazamento: não funciona e ainda te molha (muito).


E aqui entra uma ironia que não dá pra ignorar: tem gente usando diagnóstico como justificativa até para o básico. “Não te respondi porque sou ansioso.” Ou “Explodi porque tenho tal coisa.” Ou ainda “Eu fujo por causa do transtorno.” Será mesmo? Ou é só o seu jeitinho clássico de escapar de situações difíceis ou de se defender de si próprio?


Confesso pra vocês: sempre que ouço isso me lembra das pessoas que usam signos para se justificarem: “ain, eu sou desse jeito porque sou de gêmeos”. Ta bom, fulaninho. Agora senta lá e vamos falar disso encarando de frente o que realmente pode ser.


Na psicanálise, o que interessa não é o rótulo, e sim a história que você conta, e a que você não conta, principalmente. Porque é ali, nas entrelinhas, que mora aquilo que realmente te move. O diagnóstico nomeia; mas quem vive é você. Ele dá o nome do bairro, mas não diz o caminho da sua rua. E é justamente esse caminho, feito de escolhas meio conscientes, meio inconscientes, que a psicanálise tenta escutar.


O problema é quando o diagnóstico vira um esconderijo chique. Uma forma de fugir de certos enfrentamentos internos sem parecer que está fugindo. Uma explicação cômoda que impede qualquer pergunta incômoda. Uma blindagem subjetiva que, na tentativa de diminuir o sofrimento, acaba diminuindo também a responsabilidade sobre a própria vida.


E o mais curioso é que isso costuma acontecer de maneira sincera. Não é má intenção, é defesa. Mas defesa não é destino, é só um jeito conhecido de lidar com o que dói.

No fim das contas, talvez nem tudo seja o diagnóstico. Talvez seja só você mesmo repetindo velhos padrões com uma maestria quase artística. E está tudo bem: é exatamente por isso que existe análise. Não pra te culpar, mas pra te devolver a autoria da sua própria história, aquela que não cabe em rótulo nenhum.


Então, se alguma coisa aí tocou, incomodou ou fez rir nervosamente (o que normalmente é um ótimo sinal), talvez valha a pena perguntar:

Estou usando meu diagnóstico pra me compreender… ou pra evitar me olhar de verdade?


 
 
 

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